sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A arte como aventura

Se um pintor, ao iniciar uma obra, souber como vai ser, exactamente, o objecto que vai criar, creio que não haverá necessidade de o realizar, pois a execução de uma pintura é uma aventura da qual se desconhece antecipadamente o desfecho.

Técnica

Hà, no nosso tempo, uma certa tendência para desvalorizar a técnica, na pintura. No entanto é através dela que conseguimos ter voz própria. Por técnica não nos referimos aos materiais utilizados mas sim à sua manipulação.


domingo, 28 de novembro de 2010

Centelha

Não se pode suportar, por muito tempo, um estado entre a angústia e a lucidez. Por outro lado hà que aceitar a terrível realidade da vida, de conviver com ela e, se possível, encontrar uma forma de cumprir, com dignidade, o lapso de tempo que nos foi destinado. 

sábado, 20 de novembro de 2010

Juízo de valor

A obra de arte não possui uma qualidade única. É um complexo de qualidades muito distintas, por vezes contraditórias em aparência, às quais o artista consegue dar uma estrutura significativa. Existem obras que embora possuam muitas qualidades, estas estão desligadas umas das outras, razão pelo qual não podem ser consideradas obras de arte autênticas.

A evolução

O que sucede, na arte, com o artista, é um contínuo sacrifício dele mesmo, uma contínua extinção da sua personalidade a algo que vale mais, o estilo.

domingo, 14 de novembro de 2010

O meu Giverny

Superfícies, linhas de cor, silêncios como rumores, ecos e até ruídos que evocam o lugar. Momentos  e sensações concretas que aludem ao meu jardim e que nos é dado pelo estritameno pictórico: a luz, cor e gesto.

sábado, 13 de novembro de 2010

Comunicação


A arte não é, para mim, na sua essência, um problema de comunicação com os outros.
É, primordialmente, um problema de comunicação entre mim e aquilo que estou realizando.
As mensagens trocadas entre mim e o que estou a fazer constitui a raiz do problema.

sábado, 6 de novembro de 2010

A procura da luz

Depois do caos teremos de procurar uma nova ordem. Ordem essa que pressupõe a distinção nítida entre o material e o espiritual, a luz e as trevas, a verdade e a mentira. Recusar a arte como paródia, alienação mental e infantilização.

O ruído do silêncio

O artista necessita de intimidade quando do acto de criação, para poder ouvir o murmúrio do silêncio.
Só  assim, nessa intimidade, pode compreender a unidade existente entre o criador e a criação. Apenas nessa, quase total, ausência de ruído pode concretizar a ideia em obra.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A realidade da cor é a luz


Atrás das altas montanhas o céu está escuro.
A tempestade nocturna forma-se lentamente. Depois do estrépito do trovão e do lívido estalido dos relâmpagos, a tormenta instala-se na natureza íntima da realidade e no coração dos homens.

domingo, 31 de outubro de 2010

Jogo





A minha pintura é sobre a pintura e está em renovação perpétua, submetida às suas aparências, ao seu contínuo jogo de forças.
Procuro exercer uma acção, mais ou menos decisiva, dentro das minhas possibilidades de pintor e sinto, muitas vezes, o peso do acaso. Se funciona, muito bem, se não funciona, recomeça-se, num eterno jogo.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Decadência

Sempre me fascinaram os ciprestes. Lembranças de Arnold Bocklin, de Van Gogh, da morte, ou simplesmente, pela sua forma e cor?
Não sei, mas essa atracção vem de há muito tempo. Há um quarto de século plantei, eu próprio,
na minha casa do Gerês, inúmeros ciprestes, tantos quantos os que pintei. Agora,  no final da vida,
sempre que vejo um cipreste penso na Itália e associo-o à extinção da vida e de uma civilização.

Autonomia

"O pintor pensa em formas e cores. A intenção não é reconstruir um facto anedótico, mas sim construir
um facto pictórico."
Georges Braque
A pintura baseia-se no facto de que só está no quadro o que está no quadro. O que vês é o que vês.
A pintura não é a representação de qualquer facto da realidade nem a ilustração de qualquer teoria.

sábado, 9 de outubro de 2010

Flores para ela

Dias difíceis, inesquecíveis, quando tudo parece desmoronar-se, quando te abrem as entranhas, quando as  lágrimas se soltam dos meus olhos, quando tudo é vermelho de sangue, só resta, no fundo, o verde da esperança e as flores que te ofereço.
As palavras não exprimem o que sinto, pela dificuldade em manejá-las, é pelas imagens que melhor revelo
as minhas emoções, toda a vida foi assim!

A Vida

Nascemos protegidos, indefesos, num ambiente acolhedor. Entrámos na idade adulta e tornamo-nos fortes,
brilhantes, cheios de esperança no reconhecimento das nossas capacidades. O mundo é nosso, tudo é possível.
Quando menos esperámos atingimos o fim, ou antevemos a morte. Num derradeiro esforço tentámos,  inútilmente, voltar para trás. Nada adianta e ainda que as lágrimas surjam, a morte é inexorável.



domingo, 19 de setembro de 2010

A Ideia e a obra

Uma aluna disse ao seu mestre Degas, que tinha ideias para fazer grandes obras. À dama repondeu o Pintor, " Pois é minha senhora,é uma pena, mas os quadros fazem-se com tintas ".
Não são as grandes ideias que geram as obras mestras, mas sim a forma e o sentimento como são pintadas.Os exemplos de Vermeer e Morandi, entre outros, são disso testemunho.
Nos nossos dias há muitas alunas de Degas, infelizmente!

sábado, 11 de setembro de 2010

Opções


Uma obra, quando dada por terminada, deve falar por si própria. Ela é o único testemunho de um comportamento vivido durante a sua execução. É o resultado de muitas opções e outras tantas rejeições.
Talvez seja mais importante afirmar o que não se quer, do que aquilo que se quer.
Por alguma razão dizia Picasso: "eu não procuro, encontro".

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Autenticidade

Um quadro é, no fundo, um diário íntimo, enquanto é executado vai revelando o seu autor e transmitindo a visão que este tem do mundo.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Bem visto


" No fim do inverno, soletrando as cadências iniciais do renascimento que se avizinha, Domingos Pinho traz-nos todo um compêndio de interpretação da Natureza, acalentador de variadas opções de vida.O quadro para que nos remete, arquétipo de outros muitos que sugere, revela uma filosofia de contemplação, aprendizagem e louvor´erguida ao plano de uma discreta mística. Acompanhamo-lo assim num trajecto que, dignificando a Terra como raíz do conhecimento, lhe desvenda em simultâneo um coração harmonizado com o destino que nos importa cumprir. "
Bem visto Mário Cláudio, no Outono da vida, é bom que haja quem nos compreenda,

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Para o fundo

 A sociedade moderna está caracterizada por uma superficialidade que se encontra prolongada tanto na teoria contemporânea como em toda uma nova cultura da imagem. Enquanto o barco se afunda e vai a pique, os "teóricos" seguem aplicados na tarefa de escamotear o que se está passando como que não fazendo parte da tripulação.

Nada para entender

 O estado de desilusão que vive a arte contemporânea é evidente.Vive num sistema viciado de circulação e na banalidade dos seus conceitos. A arte contemporânea aposta nessa incerteza, na impossibilidade de um juízo de valor estético fundamentado, e especula-se com a culpa dos que não a entendem, não entendendo que não há nada para entender.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Qualidade vs visibilidade

A qualidade de uma obra de arte é, quase sempre, ignorada por qualquer crítico, dito emergente, no afã de poder vender a mercadoria da última novidade.
A visibilidade de um artista depende, infelizmente, mais de um crítico ou de um comissário - "curator", como se chama actualmente - do que da própria qualidade da obra por si produzida.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Autor ou intérprete ?


Hoje, paradoxalmente, a explicação não nasce a partir da obra, mas, em muitos casos, é a obra que nasce da explicação. A explicação chega a tornar-se mais importante que a obra, e em muitos ocasiões, chega mesmo a substitui-la.
Dado que a obra não se exprime por si própria, mas depende da explicação, é muito importante quem dá a explicação e assim o primordial não é o artista mas o explicador! 

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Sem aditamentos

O que realizo deve ser encarado como o que produzi. Quaisquer informações complementares ou comentários são absolutamente supérfluos. Se estes forem necessários é porque o que fiz são maus objectos que não merecem ser considerados.

Sem preconceitos

A maioria das pessoas acerca-se da arte com ideias preconcebidas, não com a mente aberta, mas com referências intelectuais, sem escutar os seus sentimentos. Deveria guiar-se mais pela emoção do que pela reflexão intelectual. Se assim acontecesse não se cairia no logro de julgar pelas ideias, por vezes enganadoras, dos outros. Assim se evitaria seguir as opiniões cretinas de certos "teólogos" da arte.
  

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Questão de estilo

Toda a minha obra é uma recusa ao estilo e ao sistema. Transito de uma tendência para outra sem quaisquer remorsos ou vontade de me fixar num género, antes absorvendo aquilo que mais me seduz em cada um dos estilos reiventando uma forma própria que, de certa maneira, constitui o meu "estilo".
Não persigo nenhuma intenção, nem estilo, nem sistema, além da própria pintura.

Perplexidade

Há muito tempo que nasci. Há muito tempo e há pouco tempo. Não compreendo muito bem o que se passou, restando-me pouco tempo para compreender o que até agora não compreendi e não penso que possa vir a fazê-lo. Tampouco chego a admitir a minha existência e a admitir-me a mim próprio.
Deus faz que creia em ti!

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Coerência

Creio que trabalho com o mesmo sentimento em todos os quadros.
A forma é muitas vezes diferente, mas, no fundo, onde parece haver
uma incoerência há sempre uma sequência, um profundo respeito pela
verdade do que julgo ser a pintura.

Água de sangue



 Não há verdades absolutas, e muito menos para a arte, e ainda menos, para a arte contemporãnea. No entanto podemos admitir que, para todos, a beleza é a linguagem da solidariedade humana. Friedrich Schiller afirmava que só ela tornava o mundo feliz e que a cultura é a única harmonia verdadeiramente social. As  "verdades" estéticas são no entanto algo de subjectivo dependendo sempre do ponto de vista do observador.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

E Depois ?


A paz é algo que procuro todos os dias, mas é algo tão difícil como o estilo de vida sereno, em silêncio, longe da vida mundana. Embora pense que o artista não é nenhum monstro isolado da realidade, também penso que para criar, deve isolar-se como o investigador no seu laboratório. Gosto de estar próximo da natureza, preciso do seu contacto e sou feliz enquanto possa estar próximo dela. Para mim o essencial são, hoje, as questões fundamentais: que é a vida ? o que se passa depois da morte ?

Confissão

Com a idade sinto-me mais apegado à essência da terra, mais romântico e selvagem, mais delicado e sereno, com mais necessidade de olhar para dentro. Com este pensamento sinto-me mais estimulado a esquecer as minhas misérias. Ainda que não tenha tido uma existência infeliz, como pessoa sinto-me em constante estado de ansiedade.

domingo, 22 de agosto de 2010

Ver a paisagem, ou ver o mundo?

O meu  estúdio, no Gerês, mais do que uma torre de marfim, é um espaço de resistência, é como uma ilha onde os monges se ocultam para preservar o conhecimento. O trabalho dá-nos um momento de paz, onde tudo está unificado.

Retorno ao velho

Seis anos depois volto ao velho blogue.Depois de acontecimentos importantes na minha vida, eis que volta a surgir uma antiga ideia de diálogo com os meus amigos e conhecidos. Vámos a ver se isto funciona, se sou capaz de dar conta do recado ou, ainda, se os incêndios por estes lados queimaram tudo,inclusive a imaginação.